15/05/13

o negociante de amêijoas e a esposa com voz de cama


A Andreia Vanessa, testemunha do negociante de amêijoas, um homem gordo e suado, entra na sala com enormes mamas falsas, cintura de vespa, top pelo esterno, decote para maiores de vinte e um, cabelo oxigenado  e unhas de gel dourado, quase do tamanho dos dedos. Perguntada, diz que “não tem profissão” e, quanto ao estado civil, que é casada com o arguido. Jura dizer a verdade e nada mais que a verdade, com uma voz lânguida  de quem acabou satisfeita e se prepara para acender um cigarro, ainda embrulhada nos lençóis. Arma pesada da defesa, portanto. Bem mais pesada do que a seis trinta e cinco de cuja posse o negociante está a ser acusado. Enquanto a testosterona judicial esvoaça pela sala e aterra em queda livre nos implantes suburbanos, a guerra entre a procuradora e a advogada mantém-se acesa, ambas bem focadas nos seus propósitos. A primeira sabe que já perdeu, porque nunca teve prova, e até poderia estar-se nas tintas e limitar-se a pedir a costumada justiça, mas os sucessivos requerimentos, excessos de zelo e arrogância da outra, despertaram-lhe o brio e, qual espártaco ferido perante crasso, lá vai dando as suas facadas, mesmo sabendo-se derrotada. O juiz, intimidado com tanto arremesso feminil, compõe à pressa um ar sério, indiferente aos argumentos explosivos da “esposa” do ameijoeiro e assistindo impávido à batalha campal. A procuradora às tantas capitula, que aquilo já são horas de almoçar, enjoada com o exibicionismo da advogada e as pavorosas excrescências nas unhas da Andreia Vanessa. O arguido mantém-se cabisbaixo e ela sabe-o, no fundo,  inocente. Tão inocente que, quando a mulher, bem ensinada e com voz de cama, afirma que no escritório “andava tudo à vontade, toda a gente entrava e saía, entrava e saía…”, a perversidade dispara na sala e a procuradora quase que vê duas ligeiras protuberâncias a despontar na testa suada do pobre homem. Corno manso, pensa para si, enquanto sorri de mona lisa. Ele há muitas maneiras de ganhar.

24/10/12

o fala-barato e a advogada por clarificar

A advogada preta, gira, esperta e de dicção perfeita, defende dois arguidos pretos que alegadamente roubaram outro da mesma raça. Aqueles remetem-se ao silêncio, numa estratégia que viria a revelar-se inteligente e deixam a vítima  meter os pés pelas mãos, contradizendo-se, voltando atrás, os olhos erráticos e o corpo a tiquetaquear, denunciando as pequenas mentiras e as meias verdades com que insiste em penalizar a assistência. A trama adensa-se: bem visto bem visto, todos se conhecem, arguidos e ofendido, tudo gente do mesmo bairro, da mesma terra de miséria. Vislumbra-se negócios comuns, trocas duvidosas, promessas incumpridas, mal-entendidos e o que parecia um roubo com violência depressa passa a extorsão,  a mero direito de regresso, a brincadeira de mau gosto. Ameaças não escutadas, armas fantasma, pneus que ninguém viu furados, polícia chamada ao local e os três em amena cavaqueira. Dois arguidos que poderiam afinal ser as vítimas. A advogada pretende ver "clarificados" alguns factos, o que não admira, dada a confusão instalada. O juiz dobra-se para o procurador e sussurra: "quer clarificar a ver se fica mais branca". Riem baixo mas sem decoro, numa xenofobia tonta e cúmplice. O procurador, entretanto, começa a fartar-se da verborreia do suposto ofendido, uma lamuria de cigano em corpo fininho de santomense, enquanto os arguidos permanecem calados, deixando-o enredar-se na sua teia suicida. A paciência é uma virtude que se esgota na directa proporção do esvair das expectativas em se atingir o objectivo primordial e a saturação de sexta à tarde começa a fazer perigar a justiça material: todos querem um fim rápido, e não especialmente misericordioso . Quando as bocas já de contornos para baixo, os suspiros de exasperação se fazem ouvir e a mulher de bata que lá fora passeia o caniche, enquadrada na janela de grades, se torna o facto mais interessante da tarde, entra a testemunha da defesa. Outro santomense, sessenta e muitos, gordo e assustado. Após o juramento da praxe, e no silêncio que se faz enquanto penosamente se senta na exígua cadeira, ouve-se um toque de telemóvel, o dele, personalizado. Nossa nossa assim você me mata ai se eu te pego ai ai se eu te pego. A advogada que precisa de ser clarificada solta uma sonora gargalhada que ecoa na outra ponta da sala, no velho ar condicionado avariado, contagiando todos os presentes e ganhando assim mais uns minutos de tolerância para o ofendido, cada vez mais enfiado nos seus pequeno corpo e embaralhado solilóquio. Mas não o tempo suficiente para que o juiz não se decida, a final, pela absolvição dos arguidos, que vão em paz. Pena não haver um crime para quem entedia de morte a Justiça, pensa o Procurador, enquanto arruma as canetas: mandava já extrair certidão contra o filho da puta deste fala-barato que me vai fazer chegar atrasado ao ginásio.

19/10/12

a advogada do diabo e a coca na gaveta

Sou toxodependente mas não vendo, balbucia amedrontado. É assim que começa, tráfico de menor gravidade, oito sacos de heroína em doses individuais no bolso, mais uns quantos escondidos em casa. Tem trinta e cinco anos mas parece cinquenta, a droga fê-lo uma sombra de si, magra e engelhada. O dinheiro que tinha quando foi detido? Veio da venda de coisas usadas, numa feira de periferia da qual as senhoras chiques que procuram velharias junto ao panteão nacional seguramente nunca ouviram falar. E onde as arranja, essas coisas usadas?, escarafuncha-lhe o juiz na ferida. Que as encontra no lixo, aqui e ali, enquanto baixa os olhos porque lhe custa mentir. Sabe que não convence ninguém, nem a ele próprio. O procurador queda-se, nada a perguntar, enquanto a defensora, mais advogada do diabo que do arguido, frustrada por estar a perder o seu tempo quase pro bono com um pequeno delito naquela sala bolorenta, entala o próprio cliente, perguntando-lhe com acinte como, se era apenas para consumo, tinha tantas doses embaladas em seu poder. Baralhado, o arguido soçobra, vencido, num silêncio magoado. Entra o agente que fez a detenção. Um homem novo, alto, de cabelo curto, máquina três, e uma ligeira popa, se calhar máquina cinco, discreta; de pose militar mas não arrogante, com bíceps tão trabalhados que parecem rasgar a farda azul. Quando vira as costas e se retira, o vislumbre da arma no coldre e as algemas a baloiçar de encontro às nádegas bem definidas provocam um frisson na advogada, e a fera interior amansa. O procurador, imune aos encantos musculados do representante da ordem pública, pede a condenação, bem sabendo que esta será de prisão, pois nisto do tráfico há que dar o exemplo. Mas, no fundo, gostaria de uma absolvição. Pois também ele, quando o stress aperta e a fobia social resvala para o pânico, abre a gaveta trancada e dá uma snifadela rápida, antes de entrar para os julgamentos e ter que alegar de pé com todos os olhos postos em si.

10/10/12

o urso das bilhas de gás

Tem um cadastro que pesa como a bíblia, engrossando um expediente à partida fininho, que se descreve num parágrafo: condução sem carta, apresentação às nove horas e trinta para julgamento em processo sumário, uma chapa e já está. O arguido, de nariz vermelho beberrão e modos bonacheiros, encaixa a barriga nas pernas quando se senta e  se desbronca, confessando muito para além do preciso. Que o seu trabalho é entregar bilhas de gás, pelo que conduz diariamente. Facto comprovado pelas inúmeras e idênticas condenações, em multas nunca pagas nem cobradas, num acervo que revela a benevolência cega do Tribunal. As feições da procuradora endurecem, perante a ligeireza, quase desdém, que empresta às palavras e aos actos. O juiz, comediante falhado, provinciano de códigos próprios e ancestrais, alvitra em tom jocoso que, se calhar, o arguido até entrega bilhas aos próprios polícias que o detiveram, ao que este, não sabemos se por ingenuidade ou esperteza saloia, aquiesce sorridente, diz que sim, que até conhece alguns deles, ao que a sala sorri com o juiz, reverente e empática. Este encarrilha na piadola e alvitra que se calhar chateou algum deles, para estar ali. A conversa atinge foros de ópera bufa e o constrangimento espalha-se pela sala como gás pimenta, intoxicando os que assistem, excepto aqueles dois homens, entretidos como se no café ou numa conversa de futebol. A procuradora, cada vez mais irritada com cada um deles à sua maneira, remete contra o arguido nas alegações, invocando, num tom glacial, a reiterada indiferença do mesmo perante a Lei, pedindo pena de prisão efectiva. Morrem os cretinos sorrisos e a expressão do dito passa num ápice de bonacheira a matadora, semicerrando os olhos na direcção da procuradora, num trejeito mudo. Esta aguenta-lhe o olhar, lembrando-se, uma vez mais, que naquele velho prédio de habitação com aspirações a domus justitiae, toda a gente entra e sai com o que quiser na cabeça e nos bolsos, sem seguranças ou polícias por perto. Ela sabe que é mais dia menos dia. O juiz também. Por isso escuda a falta de coragem – ou, convenhamos, o mais puro bom senso – num pedido de relatório social, para decidir só depois, muito depois. Justiça adiada por trinta dias e figas para que aquele bicho, encurralado mas pouco, agora de expressão agreste e parecendo ainda maior e mais gordo, como um urso, não apareça na leitura da sentença, uma coisinha má. Por favor, que nesse dia lhe dê uma coisinha má .

20/01/09

o surfista que queria comer a juíza

Entra na sala de audiências como quem entra num bar para passar um bocado, talvez fazer conversa, engatar umas miúdas. É bonito e ainda novo, mas não demais, e a barba por fazer dá-lhe um ar vagamente vicioso que anuncia emoções subterrâneas. Olha para as mulheres à sua frente - as que o vão acusar, defender e condenar - de modo apreciativo e com o à-vontade de quem julga conhecer-lhes os segredos. Ar de cama, pensa a juíza, uma mulata gira de idade indefinida, cruzando as pernas debaixo da mesa. O mais engraçado é que nem costuma beber; aliás, nem costuma conduzir. Mas a reunião acabara tarde e os três espanhóis com quem trabalhara o dia todo haviam insistido em conhecer a movida lisboeta. Sem paciência nem imaginação, despachara-os até às docas onde, por entre marinheiros em terra, monhés insistentes e casais suburbanos, comeram um peixe pouco fresco de aquicultura que o empregado lhes jurara ser de mar. Algum vinho tinto e, no fim, um puro malte que engoliu com esforço, mas que acusou no balão ao primeiro sopro. Sem saber como, viu-se conduzido à vigésima terceira esquadra de trânsito, ele e mais meia dúzia de pós-adolescentes de consciência alterada e com pressa de se enfiarem nos buracos nocturnos da vinte e quatro de julho. Não é muito alto, mas tem uma estrutura larga e granítica de macho alfa que lembra um muro ao qual nos podemos encostar. Aos costumes diz nada, acentuando a profundidade da voz com um olhar de longo alcance, o que faz com que a juíza desaperte a beca, encalorada, e sorria em demasia só porque ele nunca foi condenado antes. A tez morena e as calças de ganga sem cinto, que descaem na perfeição mesmo abaixo dos abdominais, conferem-lhe aquele ar de desportista saudável e desleixado, talvez surfista nas horas vagas, que dá às mulheres a vontade de mexer, ajeitar, compor - e depois submeter a provas de resistência. Finge atentar nas palavras da defensora, uma estagiária escolhida à pressa de uma lista qualquer, que se engasga ao alegar em sua defesa, mas os olhos, inchados e aureolados de negro pelo pouco que dormiu, seguem na verdade a curvatura da nuca da juíza e descem até ao decote, entrevendo, pela beca semi-aberta e contra a pele dourada escura, um soutiã de renda branca. Já a despira por completo quando acorda para a voz que lhe debita a sentença, mil euros de multa substituíveis por trabalho comunitário. Sentindo trepar por si uma excitaçãozinha familiar, pensa que não se importava de comer a juíza, belo exemplar de uma corporação profissional que ainda não tivera o prazer de adicionar ao seu vasto curriculum, mas cujo exercício quase discricionário de poderes vários lhe alimenta fantasias secretas de submissão. Comer a juíza, que exerce uma função pública e aplica a justiça em nome do povo, contará como trabalho a favor da comunidade?. E ninguém na sala entende porque parece sorrir, divertido, ao ser-lhe dito que ficará sem carta durante três meses, a título de pena acessória.

06/10/08

a romena das nossas senhoras

Vende isqueiros, pensos rápidos e imagens da nossa senhora de fátima, e tem um ar duro, com os cabelos escuros pintados de amarelo agarrados num rabo de cavalo que lhe dá quase pela cintura, os dentes maltratados, o corpo largo e pesado. Fincando os braços cruzados sobre um busto grande e resoluto, mistura espanhol com italiano, enquanto os olhos pequenos e acossados perscrutam a sala, lampejando desejos de vingança e fuga. Está aflita, mas é uma sobrevivente e não será por isto que. Ao lado dela, uma professora brasileira traduz com enfado as mentiras que vai debitando. Diz que não percebe porque a prenderam e porque lhe tiraram o relógio que tinha no pulso, um presente do pai. Que esteve em Espanha mas não gostou, pois vende-se menos e vive-se pior, por isso regressou a Portugal. Não tem passaporte, não mora em lado nenhum, mas não sabe que está ilegal pois pensou que pudesse passear-se livremente pela union europea. Que o polícia a agarrou pelos cabelos, o bruto, e lhe tirou o relógio, un presente do mio padre. A procuradora, curiosa, abre o envelope agrafado no verso dos autos e retira o tão desejado relógio do seu interior. Constata, abismada, que é de uma marca de luxo, daquelas por si namoradas nas tardes de domingo em que enxota a solidão pelas montras do montijo shopping. Com diamantes verdadeiros à volta do mostrador madrepérola, tem uma bracelete de borracha cor-de-rosa, característica da marca em questão, que ela não resiste a dobrar de um lado para o outro, oferecendo os pequenos diamantes à luz que entra pela janela de saguão da sala de julgamentos, encantada com o efeito brega chique que resulta do contrate entre a borracha e as pedras preciosas. Enquanto isto, a romena insiste que o relógio foi presente do pai e quer à força que lho devolvam, choramingando uma ladainha incompreensível com um olhar assassino. Dentro do envelope, estão ainda umas cartas velhas: um dois de paus, um dez de ouros, um joker, uma dama e um plástico duro e curvado, gastos de tanto serem usados para soltar os trincos das fechaduras e limpar residências onde pousam, descansados, dentro das suas caixas de alcântara, relógios de diamantes. Instada sobre para quê as cartas, a arguida olha nos olhos da procuradora e diz-lhe, sem um pingo de vergonha, perdido por cem perdido por mil, para o poker, señora, las cartas son para djogar poker.

17/09/08

o esperto saloio

Tem dez filhos em Cabo Verde e outros tantos em Portugal, e di-lo com um orgulho infantil, como se mais homem por isso. Apesar das origens africanas, a esperteza é saloia: às perguntas, finge que não ouve, que não percebe e, quando responde, mente. Acontece que os sons das férias ecoam ainda pela sala: o arrulho do mar, o riso morno dos miúdos que pelam do nariz, o ladrar de um cão ao longe, as carícias fugidias do vento suão. Ninguém está receptivo a minorias palradoras que endrominam tribunais logo às nove da manhã. Numa subserviência forçada, de costas curvadas e cabeça baixa, o arguido jura pelas alminhas e pelos santinhos, pretensamente indignado com o desplante da acusação. Numa acareação improvisada, teima com o polícia que não, que não bebeu nem conduziu, embora não o olhe a direito, nem sequer de viés. Sabe que a multa vai doer, que o seu único trunfo é o jeito natural para espalhar a semente e atira com a filharada pequena à cara ensonada do tribunal. Que a segurança social já lhe tirou dois, que se não tiverem que comer lhe tira os outros. Pior a emenda. Perante o descalabro parental, vai-se a réstia de boa vontade de quem decide, e por momentos congeminam-se vinganças e prisões efectivas. O sol lá fora, a espraiar-se pelo alumínio das marquises do subúrbio, não ajuda.

22/07/08

um dia

"No banco dos réus, um mecânico efeminado, que sonha, húmido, com o cristiano ronaldo, esconde os nervos e as mãos nos bolsos das calças, escrupulosamente rotas, milimetricamente descaídas. Do tecto rachado pinga o ar condicionado, manchando o banco em madeira do público, que se acotovela, curioso, do lado oposto. Um balde azul de plástico, cortesia da dona olinda das limpezas, engole vagarosamente a água e a dignidade do tribunal. A funcionária grávida, de joelhos inchados e pele oleosa, chora na casa de banho e finta a fúria sibilina da colega da frente, uma balzaquiana de maminhas empoladas pelo top de licra, refém da ovulação e do programa informático, ambos inúteis. A fotocopiadora, encravada no on, espalha um calor doentio pela secção e o ruído de fundo de um rádio a pilhas embala a pré-reforma do silva do arquivo. Nas alegações de uma bagatela penal, um advogado pomposo de punhos puídos e meias solas novas, cita Santo Agostinho e discorre livremente sobre os benefícios do azeite. A videoconferência está avariada e dispensa-se a presença da testemunha, que empurra para a carteira a justificação da falta e vira costas, rangendo entre dentes o tempo perdido. O senhor secretário, da porta entreaberta, controla as idas e vindas e lambe a ponta do lápis, fazendo as contas ao papel higiénico. Da janela, vêem-se os ciprestes do cemitério apontando umas nuvens escuras que puxam o céu para baixo como se o cosessem à terra. Na única pastelaria em redor, os pratos do dia são alheira com ovo e favas com entrecosto, que as mulheres encaixam, gulosas, nas ancas, aplacando a culpa com aspartame no café. A estagiária, roendo a bic, simula enlevo pelo ilustre patrono de aliança no dedo e este incha e esmera-se no requerimento para a acta, espanejando-se muito e floreando o banal, numa espécie de rito de acasalamento. Na sala dos arguidos, um ucraniano magro de olhos de águas turvas e nariz aquilino lamenta-se no ombro de quem o deteve, enquanto um cigano, belíssimo, se mostra indiferente aos cuidados grasnados pelas mulheres da família, em inquieto alarido. Estas, com os seus traseiros enormes e os rabos de cavalo que chicoteiam o ar, com o despudor das vozes grossas e a latitude dos movimentos, oprimem o espaço que se torna exíguo. Nos calabouços, um bom pai de família vomita a ressaca no chão de cimento e as obras continuam no andar de cima, impedindo que todos se ouçam. Da sala de audiências só constam mulheres, excepto os arguidos. Lá mais para a tardinha, quando o recorte das nuvens se começa a confundir com o dos ciprestes, o in dubio pro reo começa subtilmente a ser substituído por outra dúvida, o que vou fazer para o jantar."



(24 de Outubro de 2007)

02/06/08

a juíza grávida

A meretíssima é uma mulher desagradável, e até um bocadinho feia. Os lábios, inchados pela gravidez de quase nove meses, sustentam um buço incipiente e retorcem-se num estranho tique, a cada resposta que lhe desagrada. Afasta, com uma impaciência agreste, a cabeleira escura da cara, onde uma pigmentação castanha lhe esbate as feições imperfeitas. Apesar do tempo ameno, mostra-se encalorada e sopra para o interior do decote aberto, enquanto empurra a beca para trás como se renegasse a função. O arguido desfia o seu rosário de contas mal-paradas mas ela nem o ouve, está farta. Funga ruidosamente e respira como quem se afoga, ao mesmo tempo que se imagina no quarto do filho, com as suas cortinas em voile compradas na la redoute e os frisos azuis ao longo da parede branca, em cima do tapete de ursos e comboios que só ela pisa descalça, a dobrar os pijamas de algodão com cheiro a sabão novo e a ensaiar canções de embalar, as fraldas amorosamente empilhadas na gaveta do vestidor. Está tão pronta para o receber, que está prestes a deixar de o estar. No pulso, um relógio grande, de homem velho, com uma correia de pele preta e grossa, contrasta com as suas saliências feminis, exacerbadas pelo fulgor da maternidade próxima, e marca ao segundo a sua repulsa em estar ali, a ouvir os filhos dos outros e impedida de escutar o seu. Os arguidos, que vão entrando na sala, respiram fundo e sorriem, ao verem uma mulher como juiz, ainda por cima grávida, confiantes no tradicional dom feminino da bondade e do perdão. Mas cedo se apercebem, ao segundo ou terceiro resfolegar, ao terceiro ou quarto sopro, ao quinto ou sexto tique dos lábios entumecidos, de que antes um homem, por deus, antes um homem.

26/05/08

a puta desnaturada

Parece ainda maior do que já é, a brasileira, empoleirada numas sandálias compensadas com mais de um palmo de salto, duas tranças de ráfia que lhe apertam o pé grande e moreno, e as unhas enfeitadas com pequenas palmeiras cintilantes. As pernas, altas e grossas, estão presas numas jeans de feira que lhe apertam a parte de baixo das ancas e lhe fazem transbordar a carne em excesso, que sai, aliviada, por cima do cinto dourado de plástico. À vista, uma cicatriz vertical, de cesarianas antigas, que lhe divide em dois a barriga flácida. Um top tigrado, muito curto, esconde um peito pequeno, e o cabelo comprido e seco, pintado de amarelo, revela o preto azulado da raiz. A cara, esbranquiçada e empoada como a de uma cortesã, por onde espreitam os poros abertos de uma pele oleosa, tem traços índios, realçados pelo único brinco, uma pena colorida com missangas na ponta. Os olhos, pequenos e rasgados, afundados em pestanas falsas, encimam uma pose displicente, quase relaxada. No entanto, ela sabe que, da impressão que hoje causar, depende a sua permanência neste país. A voz fina e dengosa contrasta com a expressão dura e resoluta. Trabalha num restaurante, tem homem português e quer ficar cá para sempre. Para o Brasil, para aquela miséria, nunca mais. O Tribunal ri para dentro, desdenhoso, sempre a mesma conversa, estas putas, trabalham todas em restaurantes. Filhos? Que sim, três, pequenos. Cá? Não, no Brasil. Estão com quem? Hesita, faz um esforço de memória, com os avós. A expressão mantém-se inalterada, dir-se-á indiferente. O interrogatório continua, mas o mal está feito. Para o tribunal este é o crime, o de lesa majestade, o pecado capital. Não é o de obviamente se prostituir pelas esquinas da periferia, não é o de ter sido apanhada em flagrante a furtar, nem sequer o de estar aqui ilegal: é o de ser uma mãe desnaturada, a puta. E, em nome daquele artigo no código não escrito que estabelece a ordem natural das coisas, o tribunal condena-a a ser mãe e entrega-a ao SEF, com ordem imediata de expulsão. De volta ao lugarejo infecto no estado de minas, de onde saiu. De volta aos filhos. Impondo-lhe, num arremedo de estupidez ou de mera ingenuidade, a prática forçada dos afectos, como medida acessória.

12/05/08

o ucraniano que metia medo

Mais de dois metros de altura, quase uma aberração de feira. A intérprete ucraniana, com brincos de filigrana que contrastam com a altivez da sua cabeleira loura, traduz apressadamente. A cada pergunta em português correspondem muitas palavras em russo, numa complexidade linguística que parece reflectir a complexidade de um povo. Os olhos do arguido, de um marinho empedernido, não exprimem qualquer emoção, excepto quando diz ter uma filha. Aí, quase um sorriso. Que é pedreiro cá, mas engenheiro na Ucrânia, embora lhe falte o engenho para mentir com aprumo, tal o chorrilho de mentiras em que se enreda frente ao juiz. Quando é lida a sentença, passam-lhe, pelo azul dos olhos, instintos homicidas e ganha trejeitos de vingança, evocando cossacos ferozes que cortam cabeças a golpes de sabre como quem abre maçãs ao meio. Um arrepio de medo percorre os presentes que, numa espécie de consciência colectiva, se lembram em simultâneo que o edifício não está vigiado, que não há um segurança na entrada, que é livre o acesso aos gabinetes e que a esquadra mais próxima fica demasiado longe. Que cada um entra com aquilo que bem quiser nos bolsos, desde facas a más intenções. E que é só uma questão de tempo até que uma tragédia no tribunal, tantas vezes anunciada, abra com pompa e circunstância um qualquer noticiário das oito.

24/04/08

a batedeira eléctrica e o cícero da periferia

Naquele pequeno tribunal, a funcionar no rés do chão de um prédio encalacrado numa periferia desolada, a pompa e circunstância do advogado de defesa torna-se ainda mais patética. Qual Cícero no fórum romano, projecta a voz analasada contra as paredes apertadas da sala e, numa profusão teatral de devidas vénias e de vossas excelências, agita a toga com modos teatrais, parecendo um morcego atordoado ao qual falhasse o sonar. No fim de cada frase enfatiza desnecessariamente as sílabas, como se lhes batesse, a fim de evitar a gaguez de criança que teima em trair-lhe a eloquência. Arenga a propósito da garantia mal traduzida de uma batedeira eléctrica à venda nos hipemercados da sua cliente, uma multinacional conhecida. Metade da exibição é vaidade e soberba; a outra metade, é apenas o modo de justificar o dinheiro que ganha. No todo, o tédio mortal com que infecta os presentes. O procurador, apesar do traje de função demodê, é um pai moderno que passa as noites acordado a embalar o filho bebé, o que se vê pelos papos roxos à volta dos olhos, que esfrega com vigor para não adormecer, embalado na fonética solene dos brocardos latinos. Está a gostar tanto de se ouvir, o advogado, que descola do tema e aterra nos princípios gerais do direito, cego à impaciência alheia que cresce na sala como uma coisa palpável, como um gás venenoso ou uma estranha humidade de fungos. A dogmática jurídica aplicada a uma batedeira eléctrica. O juiz boceja, irritado, e pensa nos muitos processos que, naquele momento, se empilham periclitantes na quietude do seu gabinete. A cada minuto que passa, aumentam as hipóteses de uma coima estupenda e brutal se abatar sobre a multinacional, afinal, o aborrecimento, a atenção forçada e o tempo perdido, terão de ser devidamente vingados. E assim se fará justiça.

13/04/08

a vizinha-esfinge e o velho dos olhos baços

Na verdade, ninguém na sala quer saber se a mercearia avançou dois ou dez metros para a frente, nem se para tanto havia licença e o tédio preenche-se com o dever de ofício. Para além do inspector da câmara, o estado arrolou o vizinho do lado, porque quem prevarica também incomoda. Entra o dito, contrariado, a primeira vez num tribunal, a notificação amachucada na mão que treme, o corpo quebrado pelos quase noventa anos, sem olhar a vizinha que, sentada no banco dos réus, o mira de mãos postas e costas direitas, como uma esfinge que não o conhecesse. Pedem-lhe que confirme que foi ela que lhe entrou com o alumínio pela varanda e lhe roubou a vista para as rosas bacará no terraço, do outro lado do portão. Que lhe roubou a vista para a dona arminda, aquela rapariga praí de uns sessenta anos, que dobrava para ele o traseiro graúdo, apertado na bata de poliéster, quando regava as rosas pela tardinha. Mas, agora, os seus olhos baços estacam no verde do avançado e na janelinha falsa, aberta a meio, que parece vigiar-lhe os rituais de velho. Perdeu a privacidade, foi, senhor manel?, pergunta o juiz e ele, enrolando os lábios engelhados nas gengivas nuas, acena ao de leve, sem discernir que não foi ele que perdeu a privacidade, mas a arminda que a ganhou, o traseiro dela agora arredado dos seus vislumbres levemente obscenos, embaciados pelas cataratas. Então, de que modo é que essa senhora aí atrás o prejudicou? Sem responder, levanta-se e deixa na frente do juiz duas fotografias em que, de ângulos diferentes, se vê uma construção grosseira de alumínio e chapas de zinco a cobrir um portão entre dois prédios de marmorite. Aponta para uma varanda escondida e recuada, a sua. O juiz pergunta-lhe se aquilo o incomoda e ele diz que não, pensando sem querer nas rosas da rapariga, da arminda, na rosa gigante, desabrochada e plenipotenciária que é o traseiro da arminda. Então, entalado entre a pena pelas tardes hoje passadas à sombra do avançado e a vergonha pela delação, desata a chorar. Que não queria ir ali, que o obrigaram, virando-se para trás e implorando perdões e clemências à vizinha-esfinge que, às tantas, nas tintas para a postura adequada que até então mantivera e indiferente à ordem do tribunal para que fique sentada e se cale, se levanta e lhe afaga, desajeitada, os ombros convulsos, Deixe lá, senhor manel, eu sei que não foi o senhor, não fique assim, eu sei que não queria vir, não se apoquente que ainda lhe dá uma coisa. Deixe lá.

25/03/08

o ladrão que era boa pessoa

Tem o ar típico do delinquente: magro, o rosto sumido cravado de acne, brinco na orelha esquerda, um blusão velho a imitar os dos universitários norte-americanos que lhe escorrega pelos ombros descaídos. Olha para o juiz como um animal acossado, em relances furtivos, o corpo meio de lado, num trejeito de fuga iminente. Responde por monossílabos ou não responde de todo. Nas bancadas, lá atrás, a namorada dá conta de tudo, enquanto rói as unhas, nervosa, atenta. Para comprovar qualquer coisa que diz, são precisos documentos, que não traz consigo. Então, onde estão? É a minha namorada que os tem. Ela, que ficaram em casa, na gaveta, que se for preciso vai buscá-los. Nome da mãe? Não se lembra. Ouve-se a namorada, Guilhermina de Jesus. Dia em que nasceu? Não tem bem a certeza, três ou quatro de Abril. De novo a voz lá ao fundo, quatro. O que é que faz? Afunda os ombros parcos no silêncio, ajeita-se um pouco mais na diagonal, já só fita o chão. Era toxicodependente, foi-o durante muitos anos, mas agora está recuperado, até trabalha de vez em quando. E faz o quê? A minha namorada procura-me empregos nos jornais, eu vou lá, às vezes fico, outras, não. O juiz olha por cima da cabeça dele, bem, se calhar é melhor passar a fazer as perguntas à sua namorada…. Ele ri aliviado, sabe que pode contar com ela até à morte. E ela responde a tudo: datas de condenações, penas suspensas, penas cumpridas, multas pagas e por pagar. Quando não sabe de cor, recorre a uma pasta de papéis que tem sobre as pernas. Confirma que o pior já passou, que ele se deixou dos roubos e da droga, que quando não trabalha está em casa. O juiz, extravasando da sua função, pergunta-lhe porque é que ela, uma mulher obviamente com cabeça, articulada, que sabe o que quer, está com um indivíduo daqueles?! Apesar da impropriedade da questão, todos os presentes se interrogam o mesmo. E ela, pensativa e compenetrada, reflecte um bocadinho e depois responde, com um halo de ternura na voz, é que ele é boa pessoa, senhor doutor juiz… apesar de todos os disparates que já fez, tem um bom fundo. É boa pessoa. E ele, às palavras dela, destorce o corpo que lhe fugia e endireita-se, os ombros orgulhosos por fim sustentando o blusão coçado, a fuga entretanto adiada.

04/03/08

a rapariga do umbigo que chorava

Cerca de cinquenta quilos, a sónia cristina. Dezoito anos, empregada de mesa, dona do mundo. Calças de ganga de cintura demasiado descaída e, na barriga branca e plana, um umbigo saliente a lembrar uma hérnia de infância. Agrafada ao umbigo, uma lágrima de vidro branco, que balança quando respira. À espreita, uns pêlos púbicos, quase públicos. Os presentes fixam-se na nudez sem pudor daquela nesga de pele que lhes lembra uma ínsula desgarrada, presa a continente nenhum. Usa a moto para ir trabalhar mas não tem licença. Não tem licença porque precisa de seguro, não tem seguro porque não tem dinheiro. Apesar de tudo, mostra-se confiante, segura de si e dos seus dezoitos anos, que a levarão seguramente a todo o lado, haja gasolina para tanto. Em desafio, atira o umbigo para a frente como que para alguém o apanhar e por momentos parece que cresce. O juiz fala-lhe com calma, tentando entender porque é que atrás dela as bancadas estão sem ninguém, não há um pai, uma mãe, uma irmã, um namorado que a tenha vindo apoiar. Ela diz que se zangou com a mãe e saiu de casa, para nunca mais voltar, e que não tem pai nem namorado. Na voz do juiz, o carinho lépido de um avô que tudo desculpa; lá atrás, um espaço sem eco, de cujo vazio começa subitamente a tomar consciência. E ela, que começara tão dura, tão forte, tão pronta para esmurrar o mundo e contorcê-lo sem dó sob o peso dos seus dezoito formidáveis anos, sente agora o peso desse vazio como uma pedra amarrada ao pés e rebenta em lágrimas de dó. Escorrem-lhe pelos ossos da cara abaixo, treme-lhe a barriga num soluço e parece que até o umbigo, de onde lhe pende a lágrima de vidro que balança como nunca, chora, condoído da sua condição de orfã, que lhe pesa nas costas e a empurra para o mais fundo de si mesma.

03/03/08

O suinicultor amigo do ambiente

É dono de uma suinicultura e tem, quiçá por osmose, um ar vagamente porcino. A gordura que lhe sobe da barriga e chega ao pescoço entope-lhe a voz, que sai numa espécie de ronco afogado. Apesar do ar pouco apessoado, parece que é doutor, quem diria. A sua empresa descarrega as águas residuais (as domésticas e as industriais) para a ribeira mais próxima, e é por isso que está ali. Discorre poeticamente perante o juiz sobre a importância do ambiente para as gerações futuras e de como a sua empresa cumpre tudo e mais alguma coisa, nota-se um quase tremorzinho na voz de gargarejo. Descreve com orgulho os benefícios de uma ETAR própria que em tempos construiu, tentando convencer o tribunal do depuramento eficaz dos restos dos porcos mortos, mil e quinhentos por semana. Que fez pedidos e aguarda respostas, por isso não tem licenças. Na empresa há também um furo, a mais de duzentos metros, bomba de cinco cavalos. Há anos que vem roubando a água ao domínio hídrico, ou seja, a todos nós, milhões de litros de água que limpam a porcaria que é transformar porcos em chouriços e salsichas. E assim, de facto, se assegura o futuro das gerações: pelo menos não morrem à fome. Por este pecadilho, arrisca quinhentos euros de coima. Quinhentos euros. Que mesmo assim não quer pagar (e por isso está ali). Enquanto o juiz fala, afoga mais uma vez a respiração num ronco e olha de lado para o rolex de ouro no pulso peludo, tempo é dinheiro. Só o ambiente se vende barato, quase dado, neste país.

25/02/08

o angolano dos olhos de ponta-e-mola

Estado civil?, pergunta o juiz. Estou junto com uma melher, responde com um azedume áspero, reforçando o desprezo na sílaba tónica mal formulada. Os olhos do angolano lembram gumes, facas, navalhas de ponta-e-mola. Ao identificar a ascendência, coisa a que está obrigado, troca o nome da mãe. Que mostre os documentos, é a melher que os tem. Ela que entre. Aproxima-se uma ucraniana, a cara escrevinhada de rugas precoces. Vasculha, nervosa, o saco de mão, à procura do passaporte dele, mas tira por engano o dela. Encolhe-se com medo ainda antes de este lhe rosnar baixinho, não é esse. Aos antecedentes criminais diz que esteve preso, que fugiu, é contumaz. Habilitações literárias? Não sabe o que é isso. Se estudou. Desconversa, envergonhado, tenho poucos estudos. Mas tem o quê, a primeira, a segunda classe? Nem isso. É que nunca viveu com os pais, teve uma infância difícil em Angola, na rua, justifica-se. Chegou a ir à escola, afinal? E ele, soltando a ponta-e-mola do olhar, empunhando agora todas as navalhas do mundo, enfrenta o juiz, não, nunca fui. Faz-se silêncio enquanto é tomada a devida nota e menção. Às tantas, deslargando no ar uma réstea de orgulho, mas sei escrever o meu nome, senhor doutor juiz, as facas caídas aos pés, as lâminas rombas dos olhos espalhadas por fim pelo chão.

o recorrente efeminado

Tem um não sei quê de efeminado, o recorrente. Talvez porque o joelho da perna esquerda, ligeiramente enviesado, a adiantar-se timidamente à perna direita; ou porque a popa pintada de preto, muito certa como uma superfície sem falhas, a rematar-lhe a testa saliente. Ou, ainda, da pele acroma e da total ausência de pêlos nas mãos brancas que cravam a bancada, no anelar um refulgente cachucho com uma pedra azul de quilate duvidoso. É certo que os óculos estreitos, meio caídos, lhe conferem uma sensibilidade inesperadamente escolástica, mas a voz de castrato que ecoa na sala não deixa margem para dúvidas. Declara-se inocente, lançando os olhos para o tecto numa expressão dramática de mulher perdida, empurra os óculos para o cimo do nariz adunco que parece o bico de um pequeno agapornis, roda o cachucho falso no dedo e aconchega suavemente a popa. A cabeça posta de lado tamborila, ligeira, numa palicinesia nervosa. Pisca os olhos por detrás das lentes e coloca, com exagerado pudor, o cachucho em frente à cara, como uma dama casta num salão da corte, alargando a gola alta da camisola num ameaço de afrontamento súbito. Com a delicadeza calculada de um mimo, prende o cabelo - que não tem - atrás da orelha, com um gesto curvo, e espeta o polegar direito na testa, tentando alinhar os chakras. A teatralidade dos movimentos amplifica o ruído plástico do blusão de napa, rematado com um fecho dourado de cima a baixo. A advogada, que observa fascinada este teatro de fêmea encurralada, lembra-se de repente da anedota do tubarão e evita a tempo uma gargalhada que transforma em espirro, perante o silêncio acusador, tanto do juiz como do nariz adunco do recorrente, que este tenta, sem sucesso, empinar de despeito.

21/02/08

o aprumo do cabo serafim

Chove lá fora e o cinzento do dia cobre tudo, como uma espessa película de pó. A sala está fria, o ar condicionado continua avariado e, no cubículo de espera em frente, paira ainda o cheiro ferroso a lama que a dona gracinda das limpezas não conseguiu desincrustar dos cantos. Só um dos candeeiros do tecto funciona mas, mesmo este, ameaça uma intermitência irritante, que desconcentra. Algures ali perto, o pingo de uma torneira alterna com as palavras do juiz, que introduz a diligência. O funcionário, esfregando uma contra a outra as mãos geladas, liga o computador, que aquece lentamente, introduz a palavra passe e tenta contactar com vila nova de poiares, para a videoconferência com a única testemunha dos factos. Sentado numa cadeira em frente a uma pequena câmara encavalitada no monitor, vemos o cabo serafim, aprumado nos seus 22 anos, o uniforme engomado pela mãe. Está nervoso, desconfiado com o desenrolar à sua frente destas novas tecnologias, e mal pode esperar que tudo acabe para voltar ao seu giro pela aldeia, o jacinto tem lá umas garrafas para me dar. A qualidade da imagem é má e o rosto surge-lhe deformado, como se visto por uma lente côncava. O juiz, de auscultadores na cabeça dos quais sai um microfone, cumprimenta-o, testando a eficácia do sistema. Não se ouve um som. Após vários alôs e tou xins como o pastor do anúncio, depois de regulados todos os botões e de muito liga e desliga, a sessão é dada por terminada e o juiz sai da sala num rompante enfadado. O funcionário apressa-se a fechar o computador e a luz, não vá passar por ali o senhor secretário, a deitar contas à vida e ao magro orçamento do tribunal. Entretanto, em vila nova de poiares, o cabo serafim é notificado via telefone de que, no dia tantos do tal, terá que se apresentar a cerca de trezentos quilómetros de casa para confirmar o auto perante o juiz. Suspira, sacode um fio de algodão de um dos galões da camisa branca e sai para a taberna do serafim.

19/02/08

o jornal que cheirava a baunilha

Em frente ao tribunal há um café, que também serve pratos do dia. De manhã, quase sempre pela mesma hora, a estrela da música pimba coincide ao balcão com o eminente jurista. Moram ambos no prédio em frente. Ela não passa de uma miúda, que parece mais velha na televisão. Prende os cabelos castanhos, muito compridos, com ganchos baratos de cabeleireiro, não tem um traço de pintura e está de chinelos de quarto azuis, enfeitados na ponta com dois coelhinhos bordados. A domesticidade, no entanto, não a prejudica: vê-se que é muito bonita, embora a pele um bocado estragada, talvez das camadas de base, das noitadas, dos holofotes em excesso. Enrosca-se num xaile colorido e usa um perfume adocicado com um travo a baunilha que se espalha pelo café, pousando nos queques e nos bolos de arroz. Folheia as páginas do correio da manhã com um ar compenetrado, o esforço de leitura reflectido na ruga da testa. Ele, de fato completo e gravata, camisa branca e peúgas a condizer, os cabelos grisalhos aparados, traz, na mão esquerda, uma pochete preta onde guarda o dinheiro, o passe da carris e os óculos de ver ao perto. É um professor catedrático muito conhecido, daqueles que ajudam os governos a fazer as leis e que vão de vez em quando ao parlamento e à televisão explicar as minudências dos novos códigos, dos penais aos da estrada. Enquanto ela beberrica a bica cheia, ele engole de um trago a italiana, após o que fica por ali, ao balcão, a trocar banalidades com o dono do café, embebido na áurea de beleza que dela se desprende. Após uma leitura sofrida das páginas cor-de-rosa, a estrela enfada-se, dobra o jornal e pousa-o ao lado do seu cotovelo direito, abanando as pulseiras com motivos étnicos que lhe enfeitam o pulso tatuado. Ele pede-lhe qualquer coisa como se numa confidência, curvando-se um pouco (é mais baixo do que ela), pergunta-lhe se já leu e trocam algumas palavras. Ela diz que sim, mas ele, que enfrenta ministros e jornalistas sem sequer pestanejar, olha-a envergonhado e hesita. Ela insiste e sorri-lhe abertamente e ele, o homem por causa de quem ela não pode conduzir a mais de cento e vinte nas auto-estradas e ficaria seguramente sem carta se estacionasse no passeio em frente, agradece-lhe embevecido, agarrando o jornal e inspirando, guloso, o cheiro a baunilha que se solta no ar.

15/02/08

o bêbado da unha enorme

Tem uma unha enorme no dedo mindinho. Enorme. A advogada, com um arrepio de nojo, dá por si a pensar com obsessão na serventia daquela unha. Mais de dois centímetros, talvez três. O homem gesticula, rasgando o ar com a unha, e conta a sua história. Ele e mais dois colegas de trabalho, bêbados (assumo que bebi senhor doutor juiz), vão para casa ao fim da noite, seriam aí umas quatro da manhã. Tiram à sorte, vai o Casimiro a guiar. É mandado parar na rotunda, sopra para o balão e quase rebenta a escala; é preso, vai para a esquadra. Ficam os outros dois no carro encostado à berma, a fungar e a pensar na vida, o bagaço a emperrar-lhes o cérebro, os corpos tolhidos de cansaço . De repente, uma ideia de génio. Bora ver o Casimiro?, Bora! A cambalear, o arguido passa para o lugar do condutor, liga a ignição e ziguezagueia o punto até à esquadra. Dá nas vistas, a original condução e, após três tentativas de estacionamento no parque quase vazio (à excepção do carro-patrulha) e de um encosto ruidoso ao contentor do pilhão, é ele próprio detido. Instado a soprar para o balão, diligência quase desnecessária, ganha por pontos ao Casimiro. Confrontado com o resultado da sua própria estupidez, chateia-se, amua e recusa-se a assinar o auto, não sei porque é que me prende, não roubei nada, exclama, espraiando perdigotos pelo ar enquanto espeta a enorme unha na direcção das olheiras do policia de turno que lhe aponta a caneta, presa ao balcão da esquadra por um cordel puído.

14/02/08

o advogado que era novo e giro (muito giro)

O advogado é novo na comarca. É novo e giro (muito giro), parece um actor conhecido. Trocam-se apresentações, cumprimentos e devidas vénias. A procuradora, apressada, esconde as unhas por arranjar, arrependida por não ter ido de manhã cedo ao cabeleireiro. Coloca a cabeça ligeiramente de lado e mede mentalmente o perímetro abdominal, que massacra às terças e quintas no pilates, grata pelo súbito recato da beca. Mais tarde, prestará uma atenção quase coquete à testemunha, fingindo que a ouve. A funcionária agita-se na cadeira quando o advogado novo e giro (muito giro), lhe entrega a procuração, convencida de que é da puta da idade, a subida dos calores. Olhando-o de soslaio, mordisca ao de leve a bic depois de juntar o papel aos autos, e deixa-se ir numa expressão sonhadora, de heroína de novela. O juiz chama-lhe a atenção para que ponha a prova a gravar; ela ruboresce e pega na cassete áudio, que enfia apressadamente no gravador, enganando-se nos botões. A procuradora, cá de cima, acha-a ridícula, enquanto sacode os cabelos como se faz nos anúncios aos cremes jojoba, aqueles passados no meio da floresta, e trinca ao de leve os lábios, para lhes dar cor.

13/02/08

o sindroma do sócio-gerente

Às vezes, também acontece. No banco dos réus, pessoas normais, de acordo com critérios de normalidade baseados no preconceito que temos contra quem mais se afasta de nós. Nada de desvalidos, minorias ou escorraçados do sistema mas, antes, um bonus pater familia, esposo e pai amantíssimo, aliança no dedo, camisola de marca, crime de desobediência. Os factos que descreve ao tribunal indiciam uma arbitrariedade policial do tempo da outra senhora. Mas a empatia que normalmente suscita quem se apresenta como vítima é rapidamente substituída pela descrença e o enfado, tal a incongruência da história. Ninguém gosta que lhe chamem de parvo e o interrogatório aperta. A prova compõe-se, com os relatos das testemunhas. Fica entretanto a saber-se que o arguido é sócio-gerente no ramo da construção civil e que o seu carro, o tal que estava mal estacionado, é um mercedes, eu faço o que quero, não me identifico coisa nenhuma. E é toda uma nova série de preconceitos que irrompe na consciência colectiva do tribunal. Está condenado.

o senegalês ilegal

Conversa com o intérprete, gesticula com convicção e sorri a espaços. Está cá há quatro anos, embora nem uma palavra de português. É servente de pedreiro, mas vive da venda ambulante. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras aprestou-se a trazer ao tribunal este homem, claramente nocivo para o país com as suas girafas de pau-santo, colares de falso marfim e relógios chineses. Pressurosos, estes inspectores que aguardam lá fora, na sombra. Apanham muitos ilegais, mas preferem putas e velhos, porque será. Embora este não seja assim tão velho, só parece. Vive sozinho num quarto alugado, está colectado nas finanças e tem o passaporte em dia. Sobre ele impende o paradoxo de muitos imigrantes: precisa de autorização para arranjar trabalho, mas ninguém lhe dá contrato sem ter os papéis em ordem. De repente, escorre-lhe um fio de queixume da voz e azeda-se-lhe o olhar grisalho. Parece que é muçulmano e que lhe serviram porco à alentejana na cela, o prato do dia na cervejaria em frente. Um desperdício, desabafou o secretário, quando lhe entregaram a factura com pingos de gordura para que pagasse, a adiantar pelos cofres.

12/02/08

a mulher que não se lembrava de nada

Não terá mais de metro e meio, menos de cinquenta quilos, e o cabelo penteado em copa, num tom acobreado que lhe esconde as brancas e a vergonha de ali estar, a olhar de baixo. Tão inesperadamente bêbada, que se espetara contra uma árvore, nos idos de uma destas madrugadas. Não me lembro de nada. Recusara-se a soprar o balão e atingira a dignidade dos agentes, homens com a sensibilidade de meninas, arremessando-lhes injúrias e impropérios vários. Aos costumes, que foi casada com um homem durante doze anos, mas há dez que vive com um rapaz. Há um tom de triunfo neste rapaz, de triunfo sobre a velhice que lhe assenta nas pálpebras como pó. É empregada de limpeza e pede desculpa ao polícia-menina, um homem de metro e noventa que diz ter sido difícil algemá-la porque estava violenta, foram precisos dois colegas. Apesar de limpar chãos todo o dia, vê-se que não consegue sacudir a velhice-pó das pálpebras e que nem o seu rapaz a pode salvar. Não me lembro de nada. O ar triste da mulher enche a sala, encurvando a mobília. Do que quer que se lembre, já é demais.

o cigano que era o irmão dele

A sala agita-se, o arguido é um cigano conhecido nas redondezas, um famoso, descendente de uma longa linhagem de desdenhosos da lei. Os parentes mais próximos, de cinturas largas e gestos desabridos, acumulam-se na sala e no corredor. O juiz pergunta ao arguido se este é o não sei quantos. Que não, que esse era o irmão dele, que morreu da droga na prisão. Insiste o juiz, mas o seu irmão não tinha levado um tiro da polícia? Esse é um outro irmão, intervém o advogado. O juiz não se convence, a conversa cresce e vai animada, o funcionário dá uma achega, nos meios pequenos é assim, todos se conhecem. Às tantas, do fundo da sala, a mãe dos vivos e mortos interrompe, esclarecendo de vez a questão das identidades trocadas. Sorri, contente com a atenção do juiz, do senhor doutor. Mas de repente lembra-se de que fala dos dois filhos mortos e que tem que os carpir, de preferência bem alto para que os parentes, incluindo os que esperam na mercedes amarela, não duvidem um bocadinho que seja do seu desgosto de mãe, que quase a mata. Saca de um gemido gutural que transforma num ai prolongado e a sessão é interrompida. O juiz espera que, como no universo, a ordem se restabeleça de modo natural e por si, demore lá o que demorar. Finge consultar o processo e mergulha os olhos medrosos na resma de papel cosido; polícias não há nas imediações, merda. E pensa que talvez já esteja na altura de começar a refrear esta sua vontade de se tornar íntimo das estrelas.

11/02/08

O arguido que não queria falar

Com uma denúncia, começa sempre com uma denúncia, naquele café está uma roleta que dá dinheiro. Este país é muito assim, pequenino e medricas, um rosto irrelevante (que seria desprezível se por acaso atentássemos nele) escondido atrás de um telefone, de um email, de uma folha de papel. O arguido vinga-se, já que falaram demais, agora é ele quem não fala. Na verdade não é desforço, é estratégia: o advogado disse-lhe que se cale, que nada confesse e ele cumpre, que o doutor é que sabe. É-lhe perguntado o nome, a filiação, a naturalidade. Olha receoso para a esquerda do púlpito, está na dúvida. Ao aceno subtil do advogado, que finge cofiar a barbicha de bode, responde a tudo, mas responde baixinho. Hesita envergonhado no segundo nome do pai, que não chegou a conhecer. Se já respondeu em Tribunal. E ele mudo, os olhos aflitos e os sons a quererem fugir-lhe da boca cerrada, a cabeça que acena ligeiramente, não se percebe se num não se num talvez. Então o juiz percebe a razão dos silêncios, dos balançares, da estranha linguagem corporal e lembra-lhe de que, quanto aos antecedentes criminais tem que falar e falar com verdade. Ele não acredita, acha que é uma armadilha; um embuste para que desagrafe a boca e confesse o chorrilho dos seus pecados, e por isso continua calado, os olhos agora no chão, fixos nos nós do soalho. Finalmente o advogado, que responda ao meretíssimo, o silêncio vem depois. O corpo descontrai, e o alívio que dele flui quase se ouve contra os quatro cantos da sala. Que não, que nunca respondeu nem esteve preso.